
Bom dia,
Já que os outros "Cobras com Asas" não se animaram publicar seu material aqui irei fazê-lo. Espero que gostem e como eterna aprendiz ficarei feliz com as críticas e sugestões:
Este conto foi construído para um Concurso de Contos, cujo desafio era escrever sobre: 'REVELANDO A SI MESMO.O artista é sua obra..."
Pensei em fazer um conto tipo humor-negro des-reverenciando ironicamente a posição do artista e aproveitando para jogar fazer uma alegoria sarcástica a respeito de fama, sucesso, livros de auto-ajuda, programas de televisão:
QUANDO A MORTE VIRA SUCESSO
– Boa Noite Senhoras e Senhores. Teremos hoje a incrível honra de entrevistar em primeira mão a escritora-sensação Tanata Mortiça, que em busca de uma morte calma paradoxalmente alcançou o cume do sucesso. Estamos falando da autora do best-seller “Como não morrer tentando”.
– Boa noite, caro Hermes Broma, senhoras e senhores, eis-me aqui após tantas vezes ter chegado perto da morte.
– Você sabe que alguns críticos disseram que seu livro alcançou o sucesso por ser uma comédia de mau gosto. O que acha disso?
– Creio não existir mau gosto em comédia. Mau gosto é convenção. O que hoje é ridículo amanhã pode ser uma genialidade. Se não me engano foi o Jô Soares que disse que o “humor exorciza tragédias”. Resolvi mergulhar nesse meu humor trágico e real para assim criar o livro.
– Tanata Mortiça, você conseguiu em apenas um mês de lançamento estar em primeiro lugar na lista dos mais vendidos da revista Veja. E teve sua obra considerada “notável” pelo New York Times. Como se deu a criação desta obra-prima?
– Depois de várias tentativas de suicídio e sem conseguir sucesso, notei que as pessoas se interessavam pelas minhas histórias de fracasso contínuo e a maioria, mesmo tentando disfarçar, sorria na surdina. É verdade que alguns chegavam a gargalhar na minha cara. Especialistas como médicos, fisioterapeutas, acupunturistas, psicólogos, ou qualquer outro profissional que eu procurasse queriam saber o que aconteceu comigo e assim senti a necessidade de escrever sobre isso.
– Conte-me como se deram suas cinco tentativas de suicídio, que felizmente não se consumaram e ilustram o grande livro: Como não morrer tentando.
– Na verdade, agora perfiz seis tentativas. Assim que lancei o livro achei que era outra idiotice que eu havia feito. Como não consegui editora para publicar e tendo utilizado todos os últimos recursos que me permitiam cuidar da saúde e comprar remédios necessários aos vários problemas de saúde que acumulei nessas tentativas, e achando que seria mais um fracasso como tudo na vida que eu fiz, tomei nova decisão de me matar. Fui para o Pátio Brasil, um famoso shopping central de Brasília, e pulei do último andar, mas caí em cima de uma mãe com uma filha, fiquei hemiplégica, esmaguei o braço esquerdo, mas continuei viva e mesmo com o processo que o marido está me movendo pela morte das duas e tendo de andar com seguranças desde então, estou muito feliz com o livro e determinada a enterrar minhas tentativas de suicídio. Creio que a vida tem outro plano aqui mesmo para mim.
– Uau, senhores expectadores, essa foi surpresa para todos nós, não é? Mas vamos ouvir pela boca da escritora como se deram as outras cinco tentativas de auto-extermínio, descritas com maestria no seu livro.
– Bem, vou me esquivar das grandes decepções e angústias que me levaram a isso. Desgraças e problemas todos temos e não seria interessante me ater a isso, tanto é que no livro dediquei apenas um capítulo ao assunto. – Após um suspiro profundo ela modelou um sorriso e continuou: Eu tinha dezoito anos quando tentei o suicídio pela primeira vez. Estava grávida e por causa disso fui expulsa de casa. O pai do meu filho sumiu. Entrei em casa escondida, ingeri umas três cartelas de remédio para convulsão que meu irmão tomava regularmente e me tranquei no quarto.. Fiquei cinco dias em coma. Senti uma vergonha incomensurável, sofri muito, pois perdi o bebê.
– Quando e como ocorreu a segunda tentativa?
– Essa é a que mais me envergonho por ser a mais burra de todas. Estava trabalhando em casa de família após aquele primeiro episódio e o patrão tentou abusar de mim. Dei-lhe uma tapa na cara e fugi. Em casa, meu pai me bateu dizendo que, com certeza, eu tinha provocado o patrão e ainda havia perdido o emprego por ser uma inútil. Não pensei duas vezes: tomei Hidróxido de Sódio, mais comumente conhecido como Soda Cáustica.
– Meu Deus! Que loucura! Conte para os telespectadores o gosto e a sensação de tudo isto.
– Bem, o gosto era ácido e rascante, mas isto não me importava. Senti uma dor intensa e comecei a gritar desesperadamente. Meus pais me levaram para o hospital. Dessa vez, fiquei quase um mês internada. Desde então tenho dificuldade para deglutir os alimentos e tenho de fazer dilatação mensal por endoscopia. Mas, por causa disso, nunca mais fui gorda. Só agora que fui publicar o livro é que descobri que esse método funciona em apenas 2% das tentativas. Estou considerando a possibilidade de processar a indústria por não colocar essa informação na embalagem
Após uma gargalhada inesperada, o entrevistador prosseguiu:
– Desculpe, Tanata, mas é realmente engraçada esta idéia. Tipo: Proibido ingerir este produto, mas se o fizer por tentativa de suicídio lembre-se que seu sucesso será de apenas 2%. Legal. Fica a idéia. Mas conte o porquê de você tomar a atitude de não omitir essa história?
– Primeiro como alerta necessário a todos. Depois é que quando pensei em omiti-la para não parecer tão estúpida, não achei uma atitude justa com os leitores. Resolvi ser fiel à idéia que tenho do ser artista. Como artista tenho de me revelar por completo, pois eu sou a minha obra e não seria justa ao distorcer os fatos.
– Bem, sei que devido ao grande sucesso do livro você criou uma ONG para ajudar vítimas de suicídio. Como nos resta pouco tempo, peço que você resuma rapidamente as próximas três aventuras que estão descritas no seu livro “Como não morrer tentando”.
– Certo, Hermes. Da terceira vez, tinha vinte e um anos, resolvi me enforcar. Amarrei a corda nas vigas do telhado, subi na mesa e pulei, mas não devo ter amarrado direito, pois acordei com o rosto roxo, o tornozelo enfaixado, os olhos vermelhos, mas vivíssima. O médico, que me atendeu pela terceira vez, aconselhou-me a parar de chamar atenção afirmando que se eu quisesse realmente morrer deveria usar um revólver.
Agradeci-lhe pela delicadeza e segui o conselho três anos depois. Peguei o revólver 38 do meu pai, coloquei no queixo, mas inexplicavelmente a bala passou pelo pescoço, atravessou o céu da boca, penetrou no crânio e passou por todo o cérebro sem acertar nenhum vaso principal e se alojou dentro dele próximo ao nervo óptico. Nessa tentativa, perdi a visão esquerda e desde então tenho entrada separada para não passar pelo detector de metais do aeroporto e repartições públicas.
E a quinta foi no dia do meu aniversário de trinta anos quando eu pulei no Lago Paranoá tendo o cuidado de colocar uns pesos dentro da minha roupa. Porém , por infortúnio, três garotos viram e, sei lá por que, resolveram ser heróis naquela noite. Um deles morreu afogado, mas os outros dois conseguiram me salvar e viraram heróis. Foi uma comoção geral, saiu em todos os jornais de Brasília. Fiquei tão sensibilizada com a atitude dos três que resolvi escrever o livro dedicado ao jovem que morreu para me salvar. Que me lembre foi a primeira vez que alguém fez algo por mim e não podia deixar de homenageá-lo.
– Maravilha! Queremos agradecer a companhia da nossa grande dama da literatura brasileira atual: Tanata Mortiça, grande mulher e escritora de sucesso.
Após essa despedida, sai de cena uma mulher emagrecida de trinta e cinco anos, com aparência de cinqüenta, numa cadeira de rodas, o membro superior esquerdo enfaixado, um tapa olho esquerdo, mas com um sorriso radiante que iluminava todo auditório e não deixava dúvidas que não era à toa que conseguira engabelar a morte seis vezes.